Quem
chega na CRYA (Clínica Radiológica Yeochua Avritchir) pela primeira
vez impressiona-se logo na recepção. Um ambiente acolhedor, com lindos
peixinhos coloridos para relaxar, a sala de espera impecável,
banheiros à disposição, etc. Pode imaginar que chegou em qualquer
lugar, menos em uma clínica médica.
A impressão que se tem é que o
dono desse mundo deve ser inatingível, um daqueles empresários de
nariz empinado, alguém incapaz de encontrar no horário comercial. Ledo
engano! O Dr. Yeochua Avritchir, proprietário do centro de
diagnóstico, é uma pessoa muito presente e que pessoalmente cuida da
sua segunda paixão, a CRYA, com muito zelo e admiração. A primeira
paixão, como ele mesmo diz, são os seis netos que enchem seu coração
de alegria.
Mas para conquistar seu sonho não
foi nada fácil como muitos podem pensar. A vida é cheia de percalços e
provações, por isso todas as benesses devem ser muito bem
aproveitadas. O Dr. Avritchir nasceu em Juiz de Fora, cidade
localizada em Minas Gerais. E desde jovem tem uma obsessão pela
Medicina devido a um médico de família que era chamado à sua casa
quando as coisas se complicavam. Como ele disse: “Um tipo muito
especial que me influenciou desde pequeno. Por isso segui mais ou
menos o mesmo rumo”.
Quando chegou a época de optar
pelo o que fazer, o jovem de 17 anos não teve dúvidas que seria a
Medicina. E dentro dela também tinha certeza que seria médico clínico,
de preferência cardiologista. Então, em 1949 graduou-se pela Faculdade
de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Mas, em Belo Horizonte
não existia a possibilidade de tornar-se um grande cardiologista.
Dessa forma, no sexto ano saiu da
cidade com a ‘cara e a coragem’, uma passagem de ida e volta
conseguida no Palácio da Liberdade. “Cheguei em São Paulo, vendi a
volta porque não tinha para onde ir, não tinha nada”. Avritchir conta
que ficou em uma pensão perto da Escola Paulista de Medicina. Começou
a ver o Prof. Jairo Ramos e todos os “grandes” da medicina clássica
paulista e se entusiasmou ainda mais pela cardiologia.
Em 1950, foi para Israel para
fazer uma espécie de pós-graduação. Quando chegou não teve dúvidas,
colocou o diploma clássico debaixo do braço e quando perguntavam o que
era dizia cardiologista. “Um médico do hospital me olhou de cima a
baixo e perguntou que idade eu tinha? Eu disse tenho 24. E ele
respondeu: E já é cardiologista?! Aí é que eu entendi o ridículo da
coisa”.
Mesmo assim ele foi admitido
apesar da história ser complexa na época da imigração, do pós-guerra.
Um tempo difícil para o povo, muito tumultuado. Ele foi trabalhar em
clínica e nunca se sentiu tão realizado. “Eu trabalhava 110 horas por
semana, feliz da vida porque ela me sorria. Eu estava fazendo aquilo
que eu tinha que fazer”.
Um dos meus maiores medos era ser
plantonista noturno porque não sabia como agir sozinho em uma situação
de emergência. Ele havia se formado e já estava no staff do hospital.
Um dia seu nome apareceu na escala de plantão. E de madrugada
chamaram-no para atender um menino de 16 anos que passava mal. Ele
estava molhado de suor. Avritchir, desesperado, pediu à enfermeira que
lhe desse o prontuário e viu que se tratava de uma diabete, uma
criança diabética. Porém, no seu nervosismo não sabia se era diabética
ou hiperglicemia ou hipoglicemia.
Ele não sabia como resolver e
suava mais do que o paciente. No final das contas quando a enfermeira
percebeu a situação dramática sugeriu: “O senhor não quer dar uma
laranjada com açúcar para o menino porque se for hipoglicemia resolve
o problema, se for hiperglicemia não vai acontecer nada”. Ele olhou,
concordando com ela e saiu muito envergonhado porque tinha levado uma
lição de clínica médica da enfermeira por que não tinha alternativa,
não sabia o que fazer na hora. Depois de dar a laranjada descobriu
felizmente que a criança ficou boa.
Como não há bem que sempre dure.
Um belo dia recebeu uma carta de demissão porque a enfermaria ia
fechar por falta de verba. Avritchir ficou em frente ao centro
cirúrgico, desesperado, porque não tinha um tostão no bolso, mas tinha
mulher e filho; ficou principalmente sem saber o que ia acontecer.
Naquele momento, um colega passou
ao seu lado e perguntou porque ele estava tão triste. Depois de contar
o ocorrido, ele o convidou a fazer radiologia em seu departamento.
“Entre ele falar e eu aceitar a idéia não levou um décimo de segundo”.
E assim por acaso foi fazer radiologia, sem saber o que era porque em
Belo Horizonte nunca havia entrado em um Instituto de Radiologia. Como
ele disse: “A radiologia lá era um aparelho portátil de dez mil
ampères que fazia ortopedia. Eu não tinha a menor noção do que era
radiologia. Então foi aí que eu deduzi que esse emprego foi mandado
por Deus”.
No dia seguinte ele estava no
departamento fazendo radiologia. “O que eu posso dizer é que se eu
morresse e ressuscitasse eu ia pedir para ser médico e radiologista se
fosse possível”.
Em Israel, foi fazer Clínica
Médica e Anatomia Patológica, mas aprendeu também Radiologia durante
os seis anos dedicados somente ao departamento de Radiologia. Foi em
Israel que Avritchir deu seus ‘primeiros passos’ mesmo sentado ao lado
do chefe, que era um professor vindo de Viena – “porque os grandes
professores daquela época vinham da Europa, principalmente de Viena
que era o centro médico mais famoso do mundo – e devo muito ao Dr.
Padecos, o fato de ter me aceito. Eu ficava sentado o dia inteiro ao
lado dele, vendo-o fazer relatórios e obedecendo tudo o que mandava.
Ao retornar ao Brasil, em 1956,
já tinha o início da carreira, uma noção do que era a radiologia. Em
São Paulo, começou a trabalhar graças ao incentivo do Dr. Camilo
Campos da Santa Casa de Misericórdia. E de uma coisa estava convicto
de que deveria continuar a estudar e progredir na carreira. “O melhor
lugar que eu achei foi a Santa Casa, lá eu comecei a trabalhar no
Serviço de Radiologia. Ao mesmo tempo abri um consultório com um
colega”. O Dr. Avritchir ficava na Santa Casa uma parte do tempo e a
outra parte no consultório.
Na Santa Casa e na Escola de
Medicina trabalhou por vinte e cinco anos e no consultório já faz mais
de 50 anos. De lá para cá, a sociedade se desfez e decidiu montar um
consultório próprio na Rua Amaral Gurgel, lugar muito bonito,
transformado em boulevard pelo prefeito Faria Lima. Ficou lá por
trinta anos. “No começo era assim: eu, minha primeira mulher Cyma e
uma faxineira. E nós fazíamos tudo sozinhos”.
Era no tempo da revelação manual
e o desespero era imenso porque trabalhavam muito com o INPS. Mas aos
poucos foram crescendo. “Eu tinha só o primeiro andar de um prédio de
cinco andares. E com o passar dos anos a gente foi subindo até ficar
com o prédio todo”.
No entanto, a Rua Amaral Gurgel
foi decaindo e ficou sem lugar para estacionar, enfim desaparecera. Aí
ele teve a ousadia de aos setenta anos sair e comprar um terreno na
Av. Marques de Itu e apostar todas as fichas num único número.
Construiu um consultório com tomografia, ultra-sonografia, mamografia,
densitometria e tudo. “Foi uma jogada violenta. Mas, eu não me
arrependo”. Avritchir já tem duas clínicas, uma em Higienópolis e
outra na Moóca. A supervisão é cuidada pela sua atual mulher Gina
Francisco.
A respeito da profissão
escolhida: Eu me formei em radiologia convencional e continuo nela. E
acho que tem seu lugar seguro e é um erro grave que a juventude comete
de partir direto para a especialidade sem passar pela parte básica”.
Para o Dr. Avritchir a base da radiologia continua sendo a radiologia
convencional. “O que você pode ver dentro de uma chapa de pulmão ou
dentro de um osso patológico é uma parte surpreendente do diagnóstico.
Eu acho que só se deve recorrer à especialidade quando ela lhe
acrescentar alguma coisa”. Primeiro a base depois a especialidade
sempre afirma. Se apóia em um provérbio chinês que diz “Antes de
aprender a correr é preciso andar”. Então, se você não pode andar não
pode correr.
Ele pertenceu a todas as
sociedades desde o princípio e acha que a iniciativa dos líderes
associativos deve ser respeitada. “Só quem não sabe o trabalho que
eles têm, o que significa perder os dias e as noites em favor da
comunidade. Só quem não tem essa noção é que deve ousar criticar os
trabalhos desses líderes”. Ele é um dos primeiros CRM antes do Colégio
Brasileiro de Radiologia existir. Toda a vida foi membro e sempre
respeitou e considerou demais o trabalho dos líderes comunitários.
Enquanto jovem não perdia um
congresso nem uma jornada, mesmo sendo do interior. E aprendia muito
com isso. “Eu acho que é obrigatório participar de todos os eventos. É
aí que você mede o que você sabe e o que você não sabe. Se você sabe
tudo, então, você fica satisfeito com o que você sabe”. A voz da
experiência diz que sempre se aprende alguma coisa e o pouco que se
aprende é uma coisa imensa; “uma palavra, um relatório, uma
fotografia; tem o seu valor e justifica um congresso por mais que você
já sabe. Não podemos parar de aprender”.
Sobre a situação dos médicos e
dos planos de saúde, o Dr. Avritchir é pragmático. “O que aconteceu na
Medicina nos últimos anos foi a transformação da boutique em shopping
center”. Para ele, o cliente não discerne muito bem entre o que é cada
um. Vai fazer uma compra no shopping: entra por uma porta e sai pela
outra trazendo tudo dentro da sacola.
“Eu me rendo à realidade quando
acontece de alguém vir fazer uma chapa do pulmão e realizar também
tomografia, ultra-sonografia sem prestar atenção. Quer apenas sair com
os exames feitos”. Ele percebeu isso e não se concentrou só em
radiologia, transformou o consultório numa clínica com todos os exames
diagnósticos possíveis.
Isso valeu. Mas, não é exatamente
o que ele acha que deve ser. “Eu sou mais a favor da boutique.
Radiologia é radiologia e laboratório é laboratório”. Mas, se rende ao
mercado e a posição do cliente porque tem que sobreviver. “Nós vivemos
uma situação de desastre na radiologia. O futuro é imprevisível. E eu
não tenho a menor noção do que vai acontecer porque você não pode
parar, você tem que se atualizar”.
O Dr. Avritchir diz que tem que
comprar equipamentos e ficar devendo em dólar. E depois na hora do
pagamento não recebe quase nada pelo seu trabalho. “Então realmente
nós estamos sendo cada vez mais devassados. Cada vez o buraco aumenta.
O futuro a Deus pertence. Mas, realmente pertence a nós também e
estamos bastante preocupados. A gente tenta sobreviver preocupado com
o futuro”.
Existe um conflito entre o
investimento e o não-investimento. Por exemplo, com o seu filho o Dr.
Roberto Avritchir que é radiologista e trabalha na área de
ultra-sonografia e tomografia. “Eu não tenho a competência para
segurar a vontade dele de renovação, por outro lado quem paga as
dívidas sou eu. Eu é que sei, que sofro em assumi-las sem saber se vou
poder pagar”. Os outros filhos, Ilan e Jairo, são engenheiros formados
pela USP.
Conta que quando foi visitar um
amigo da mesma idade e começaram a conversar sobre a vida lhe surgir a
frase “As histórias da vida se parecem, mas nunca se igualam”. Porque
todo mundo tem mais ou menos a mesma história, um desembarcou no
Brasil, outro na Bolívia, outro no Chile. Ele achou interessante
contar as suas histórias e eles lhe pediram para escrever para que não
se perdessem. De tanto que insistiram acabou publicando o livro
“Momentos Marcantes”. Como o Dr. Avritchir todos devem ter histórias
muito interessantes de vida para contar. Quem se habilita a
escrevê-las deve no mínimo reconhecer que “o tempo não pára”.