A Estimulação Epidural da Medula Espinal para o Controle da Dor (EME)

A estimulação da medula espinal baseia-se na teoria do controle da dor de Melzack-Wall e implica no recrutamento seletivo por eletroestimulação das fibras nervosas colaterais de grande diâmetro e de baixo potencial dos cordões dorsais da medula espinal, tudo para inibir ou bloquear a transmissão da sensação dolorosa ao cérebro.

Foi aplicada pela primeira vez em 1967, por Shealy. A estimulação da medula espinal, então conhecida como estimulação do cordão dorsal, surgiu como tratamento de eleição para certos estados de dor crônica de causa inoperável.

O resultado, ao longo do tempo, tem melhorado na medida em que se consegue selecionar com mais esmero os pacientes em que cabe tal tratamento.

Também se aperfeiçoou a tecnologia do equipamento aplicado a este método. Hoje temos consenso de sua eficácia quando o método é aplicado por médicos treinados e em pacientes adequadamente selecionados.

Este método tem como resultado confirmado que:

  • O resultado atinge 60% a 70% de melhora;

  • Diminui a ingestão de narcóticos;

  • Diminui o número de hospitalizações e de procedimentos cirúrgicos;

  • Permite maior independência do paciente;

  • Diminui os gastos sanitários;

  • Melhora acentuada da qualidade de vida do paciente, inclusive com retorno ao trabalho.

Por esta razão, hoje, a estimulação da medula espinal é aceita pela comunidade médica como um valioso método para o tratamento da dor.

As vantagens do procedimento são bem conhecidas:

  • É não destrutivo: não produz interrupção permanente nem cirúrgica nem química, das vias nervosas;

  • É reversível. Se o paciente não melhorar, se desconecta ou se extrai o estimulador, não produzindo efeitos secundários clínicos ou cirúrgicos duradouros;

  • Permite verificar a resposta do paciente antes do implante do sistema, permanentemente.

A estimulação da medula espinal, consiste na criação de um campo elétrico dentro do espaço epidural que bloqueia ou modula a transmissão da informação dolorosa. Para a criação deste campo elétrico se implanta um eletrodo no espaço epidural na altura metamétrica pela qual entra a informação dolorosa nos cornos posteriores da medula. O ajuste fino da posição do eletrodo se estipula mediante uma prova transoperatória, seguindo as indicações fornecidas pelo próprio paciente, relacionados com o lugar anatômico onde recebe as parestesias, vez que o objetivo do EME é gerar parastesias nas zonas dolorosas. A sensação é similar ao TENS, porém mais ampla e intensa. A EME é adequada para a dor crônica, não para dor aguda, portanto, é um tratamento de eleição, para algumas condições de dor crônica instáveis. Daí a positividade do resultado a longo prazo, sempre calcado na melhora e aprimoramento dos critérios de seleção do paciente.

Assim, torna-se fundamental para o êxito dos resultados:

  • Cuidados na seleção do paciente;

  • Técnica de implantação meticulosa, por médico treinado;

  • Educação e monitorização do paciente.

O controle da dor poderia ser visto, segundo algumas teorias, que explicam o seu mecanismo, entre elas as seguintes:

O fluxo de sinais noceptivos, que são preceptivos no cérebro como dor, podem ser inibidos por um incremento dos sinais proprioceptivos, que poderiam atuar no sistema neoespino talâmico.

Assim, o sistema da EME implantado nas proximidades dos cornos dorsais da medula espinal, ativa as fibras nervosas que inibem os sinais noceptivos e solapa a sensação de dor com uma sensação de parestesia.

Uma segunda teoria sugere que a EME alivia a dor, aumentando a produção de endorfinas. As endorfinas se unem aos receptores nociceptivos da medula espinal, alcançando assim o sistema inibitório que bloqueia os sinais nociceptivos, antes que a dor seja percebida como dor talâmica.

Desta forma, a chave para o controle da dor seria uma avaliação cuidadosa da intensidade e limitações conseqüentes a ela, e da implementação de um programa de tratamento e avaliação da dor.

Cada tipo de dor requer modalidade diferente de tratamento para o seu controle. Isto devido ao fato dela ser complexa, em razão da multiplicidade de componentes que influem na sua avaliação, entre eles a história clínica, exame físico, exames laboratoriais, avaliação psicológica, entre outros. Em muitas ocasiões o tratamento requer o empenho multidisciplinar sistêmico.

O sistema EME de estimulação medular, aplica corrente elétrica em uma área específica da medula espinal, entre um polo negativo e um polo positivo, consistindo de uma fonte de estimulação neuroestimulador ou gerador de impulsos e um condutor que permite a passagem de corrente elétrica à medula espinal, e de um eletrodo com fio de extensão, podendo ser totalmente implantável.

Já o sistema parcialmente implantável, tem como fonte de alimentação o transmissor de radiofreqüência (externo) e receptor implantado (interno).

O sistema EME tem indicação comprovada nos seguintes casos:

  • Síndrome da dor pós-laminectomia, como exemplo: as hérnias discais, fibroses epidurais, aracnoidites, adesivas;

  • Síndromes causadas por trauma raque medular, ocasionando dor tipo queimadura e hiperestesias;

  • Neuralgia proveniente de lesões em troncos nervosos, especialmente as do nervo mediano;

  • Causalgias que são respostas muito dolorosas causadas por lesões de nervos periféricos, ocasionando dor tipo queimadura, em especial na planta do pé e na palma da mão;

  • Dor provocada por membro fantasma, depois de sua amputação;

  • Dor isquêmica periférica, provocada por falta de aporte sangüíneo, como ocorre nas arteriosclerose, enfermidade de Rainaud, vasculopatia diabética;

  • Dor isquêmica coronária, como angina refratária;

  • Dor provocada por câncer, incluindo aqui várias modalidades;

  • Dor persistente no cóccix, por trauma ou outras causas;

  • Cefaléia occipital, neuralgia occipital envolvendo irritabilidade de C2-C3, em condições crônicas;

  • Neuralgia pós herpéticas, nas situações crônicas;

  • Vulvodinia, ou também chamada neuralgia pudenda, com intenso desconforto na genitália feminina.

Dr. Felipe Wainer