|
●
BIOGRAFIA
Dra. Wanda Reichstein
Gonda
Wanda,
aos olhos da família
Por
Renato Gonda (filho)
Há
70 anos, em uma Polônia (com proposital acento fonético), pré-Cortina de
Ferro, ainda européia, pré-Segunda Guerra, nasceu, em 1934, Wandinha, ou
Wandula, como era chamada em casa. Lödz, cidade industrial, família judaica
e cosmopolita. Aos 5 anos, Hitler. Em um êxodo forçado, a fuga/saída,
graças a um ramo muçulmano da família, (uma tia-avó pintora, maometana, de
Teerã). E a extradição, com vistos de chamada do Xá da Pérsia. Via
Berlin, à Suíça, à França, ao Brasil, graças aos vistos do Vaticano.
São Paulo, cidade industrial, família ainda judia e refugiada. Sua Polônia
natal agora Soviética.
A
guerra pode enraizar preconceitos, mas também pode gerar a tolerância, a
fraternidade, o amor. Provações podem nos enclausurar, mas não podem nos
dar a vocação de ajudar o próximo, de ajudar o mundo. Algo como uma
isonomia divina – todos são iguais perante a lei – pelo menos a lei de
Deus. E assim crescem, amigos de todas as raças, de todas as origens, de
todas as religiões. Um casamento inter-religioso, misto aos olhos de muitos,
humano, aos olhos da família. E os filhos, dois dos quais ainda na
Faculdade... pediatria... psiquiatria infantil... eletroencéfalografia... e a
opção final pela Fisiatria, com um retorno a sua Europa natal,
pós-guraduação em Kopenhagen.
O
primeiro casamento já desfeito... agora um ex-marido húngaro, um novo marido
boliviano. Cidadã planetária. Três filhos paulistanos com criação
judaica, quatro enteados cariocas e católicos.
Sua
primeira clínica, seu consultório, finzinho dos anos 60. Uma secretária
(ex-babá dos seus filhos), negra, religião afro-brasileira, uma fisio
ex-freira, recém saída de um convento, duas fisios japonesas. Pouco depois
uma fono alemã. A própria Liga das Nações.
E
destes anos 70 aos seus 70 anos, quase 40 anos depois, agora filha de uma
Polônia novamente européia, a sobrevivência de uma sobrevivente, algumas
gastroplastias, uma necrose de parede abdominal, duas cirurgias cardíacas,
válvula mitral de titânio, várias cirurgias menores, alternando
pacientemente seu papel de médica e de paciente. Ajudando o mundo não apenas
por sua profissão, mas por professar seu amor, seu humor, seu otimismo
crônico (mesmo que às vezes acredite ser o contrário). Tudo sempre vai dar
certo, e tudo efetivamente sempre deu. Dos dois lados de uma moeda, vale
sempre o mais bonito, o mais humano, o "mais mió de bom" – e que
ela não me ouça falando assim... e muito menos escrevendo.
Dra.
Wanda, aos olhos da medicina
Por
Dra. Maria Isabel G. Buratto,
inicialmente assistente,
depois sócia e agora amiga.
Em
1950 Wanda decide ser médica e, após ter feito primário, ginásio e
colegial no Mackenzie, cursa a Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo, onde se forma, aos 23 anos, em 1957.
No
3º ano já desponta seu jeito peculiar de ajudar. Doa sua biblioteca infantil
com cerca de 300 livros à enfermaria do Hospital das Clínicas, criando a 1ª
biblioteca para pacientes internados.
Depois
escolhe a especialidade de Fisiatria. Por que Fisiatria, especialidade tão
pouco conhecida na época? Segundo suas palavras: Porque a visão é mais
ampla do que na Medicina tradicional, e se quisermos usar a palavra atual,
"holística". O paciente é algo mais do que só sua patologia, algo
do seu social, algo do seu psicológico, e até algo de seu trabalho.
Os
pacientes a viam como uma lutadora, alguém que não desiste, que não aceita
a vitória da incapacidade (doença) sobre o ser humano. Quando o paciente
portador de alguma deficiência parava de evoluir diante do tratamento ela
dizia: Vamos dar um tempo. Porém ao sentir a disposição deste de voltar à
luta por sua Reabilitação, retomava com toda energia.
Da
mesma forma sempre soube estimular o crescimento pessoal e profissional dos
que estavam à sua volta.
Mesmo
nas situações mais difíceis sempre se norteou por "princípios e
valores". Em sua clínica eram igualmente atendidos os que podiam pagar e
também os que não podiam: esses de forma gratuita, assumindo ela mesma os
custos do tratamento.
Em
1961 inicia seu trabalho como médica fisiatra no então IAPC, onde atuou até
1983.
Em
1962 prestou o Concurso Nacional para Medicina de Reabilitação, sendo
aprovada em 2º lugar.
Também
em 1961, ingressou no Serviço de Reabilitação do SESI, onde atuou até
1968. Em ambos serviços introduziu novos recursos e técnicas, colaborando
com o progresso da Reabilitação. No período de 1965/66 participou, como
bolsista, do "IV Curso Internacional de Medicina de Reabilitação da
Organização Mundial de Saúde", tendo tido a nota mais alta no exame
final do curso.
Em
1968 inaugura sua 1ª clínica, modesta, porém já utilizando os mais
avançados recursos de Reabilitação trazidos da Europa. À partir de então
houve intenso e constante crescimento: trouxe sempre os mais recentes recursos
de reabilitação para nossa clínica; divulgou-os amplamente, bem como a
especialidade em si.
Em
1983 aposenta-se por motivos de saúde, interrompendo de forma precoce uma
carreira brilhante que muito ainda tinha a oferecer aos nossos doentes.
Capítulo
Brasileiro da AMI
No
Capítulo Brasileiro da Associação Médica de Israel, é sócia fundadora.
Tomou sempre parte ativa como membro de todas as diretorias, exceção feita
da primeira e, continua a fazê-lo, agora à distância, já que mora no
Guarujá.
|